STENTS “MOLINHAS” SÃO PLACEBO?

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Interessantíssimo estudo foi apresentado no congresso TCT de 2017 por pesquisadores britânicos, questionando a real necessidade de “desentupir” as artérias do coração de determinados pacientes.

Já faz 40 anos que o “desentupimento” ou angioplastia coronariana existe na prática médica. Este tratamento, hoje em dia rotineiro e muito difundido, consiste em liberar a passagem do sangue por artérias entupidas do coração do paciente, através de um procedimento por cateter onde as placas de gordura que obstruem a passagem do sangue são esmagadas e depois recobertas com uma armação de metal chamada stent, mas popularmente conhecida como “molinha”. O vídeo abaixo demonstra como o procedimento funciona. Os resultados imediatos, avaliados por imagem, costumam ser ótimos.

 

 

A angioplastia com stent pode ser usado em situações de emergência, quando o paciente está sofrendo um infarto do miocárdio, e nestes casos tem seus benefícios bem determinados e inquestionáveis. Esta situação não faz parte do estudo aqui relatado.

Porém, a outra situação na qual a angioplastia pode ser utilizada ainda carece de comprovação: os pacientes estáveis, que têm obstruções mas não estão infartando.

Nos primeiros anos de utilização deste procedimento, ele foi indicado em massa para pacientes com obstruções nas artérias coronárias. Após alguns anos de estudo, ficou claro que nem todas as obstruções necessitavam deste tratamento, sendo então o procedimento reservado para as obstruções mais severas que comprometiam parte grande do coração. Mas, após mais alguns anos, ficou comprovado que a angioplastia com stents não reduz a chance de infartos ou complicações graves na doença, sendo que então ela passou a ser reservada apenas para alívio da dor (angina) em pacientes que não obtiveram alívio adequado com medicamentos, sendo esta a indicação atual.

Agora, pela primeira vez em 40 anos, pesquisadores realizaram um estudo muito bem feito onde o procedimento (angioplastia) foi comparado com placebo (procedimento falso) neste grupo de pacientes (com angina, estáveis).

Para tanto, 400 pacientes com angina (dor no peito causada por falta de sangue no coração) e uma das artérias do coração bastante obstruída foram recrutados e concordaram em participar do teste. Durante 6 semanas, todos eles foram medicados intensivamente com drogas para angina. Após este período, a maioria ainda sofria de angina, e todos foram ao hospital, onde uma equipe médica que não participava do tratamento do paciente realizou um cateterismo cardíaco (preparação básica para o procedimento de angioplastia) com o paciente sob isolamento acústico (fones de ouvido e música, para não escutar os médicos) – a seguir, o paciente foi sedado, e uma central computadorizada fez um sorteio para decidir se paciente receberia ou não o procedimento de desentupimento (angioplastia com stent); quando o paciente acordava da sedação, não sabia se a angioplastia havia sido feita ou não; nem tampouco a equipe médica que cuidou de sua recuperação no hospital tinha esta informação, muito menos seus médicos fora do hospital, de modo que não foi possível para os pacientes descobrir se receberam ou não receberam o stent (“molinha”) no coração.

Após mais 6 semanas de acompanhamento médico, os pacientes foram reavaliados de várias maneiras, especialmente no quesito angina, já que o objetivo principal do procedimento, nestes casos, é o alívio da angina (dor no peito aos esforços). Somente depois desta avaliação final é que os pacientes foram informados se haviam recebido stents ou se ainda continuavam com seus “entupimentos” intatos no coração.

Esta reavaliação final de 6 semanas testou quanto tempo cada indivíduo era capaz de caminhar na esteira (teste cardiopulmonar) e NÃO HOUVE diferença entre o grupo que recebeu stents e o que não recebeu.

A reavaliação final também avaliou a quantidade de angina (dor no peito, oriunda do coração) que cada individuo sofria no dia-a-dia, com 2 questionários diferentes. Novamente, NÃO HOUVE diferença entre o grupo que recebeu stents e o que não recebeu.

Outro teste realizado ao final do acompanhamento foi o teste ergométrico (teste de esteira) onde se mede a angina do paciente, a duração da caminhada e mudanças no eletrocardiograma indicativas de isquemia. Novamente, NÃO HOUVE diferença entre o grupo que recebeu stents e o que não recebeu.

Finalmente, um exame mais minucioso, a ecocardiografia de estresse, mostrou que nos pacientes com stents havia melhor movimentação das paredes do coração. Mas esta era considerada uma avaliação secundária, o objetivo principal do estudo era detectar diferenças na duração de caminhada ou na quantidade de angina.

Assim, pela primeira vez, ficou demonstrado que “desentupir” uma das artérias do coração com implante de stents, em pacientes que sofrem de angina, não se traduz em benefícios para o paciente no que tange à angina e à capacidade de exercício; estudos anteriores já haviam demonstrado claramente que a angioplastia com stents também não evita infartos e nem a morte.

Não custa lembrar novamente que a angioplastia com stent pode ser usada em situações de emergência, quando o paciente está sofrendo um infarto do miocárdio, e nestes casos tem seus benefícios bem determinados e inquestionáveis

Voltando aos casos não urgentes, é possível e até provável que haja alguns pacientes específicos onde este procedimento seja benéfico, mas o efeito de melhora clinica até então considerado irrefutável por boa parte dos médicos parece tratar-se de mais um caso de efeito placebo. Este foi o primeiro estudo de angioplastia feito contra placebo, e não mostrou vantagem em realizar angioplastia com stent. Assim como já ocorreu em outras situações da medicina, aquilo que parece simples e lógico também precisa ser comprovado por estudos científicos e muitas vezes os resultados são surpreendentes, ilustrando o quão pouco ainda conhecemos sobre o corpo humano.

FONTE:

http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(17)32714-9/fulltext

 


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