Reavaliação da tradicional dieta do coração

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Há décadas a população vem sendo ensinada que comer carne gorda (gordura saturada) faz mal para o coração, e que as gorduras vegetais (óleos vegetais, margarina) são saudáveis. A hipótese tradicional prediz que o colesterol no sangue reduz com a troca de gordura saturada por óleos vegetais ricos em ácido linoleico, e isso reduziria os depósitos de colesterol nas paredes arteriais, desacelerando o progresso da aterosclerose, reduzindo eventos coronários (infartos) e prolongando a vida.

Tal conhecimento passou a se difundido no final da década de 1960, e não foi questionado significativamente até pouco tempo atrás, sendo tratado como “verdade sedimentada” ou “senso comum”. Apesar de fazer sentido, e da presença de estudos mostrando que esta troca de gorduras na alimentação realmente reduz o colesterol total no sangue, a suposição de que isso seria benéfico para saúde ainda não passa disso: uma simples suposição.

Estudos de mais de 50 anos de idade testaram a troca de gordura saturada da dieta (gorduras oriundas de animais e laticínios) por gorduras ricas em ácidos graxos poli-insaturados (óleo de cártamo, óleo de milho) e depois avaliaram o resultado nas medidas de colesterol. Estes estudos mostraram redução do colesterol total, e foi então assumido que a troca seria benéfica para saúde.

Naquela época, porém, considerava-se que todos ácidos graxos poli-insaturados eram a mesma coisa, e hoje sabemos que não são; existem diferenças importantes, por exemplo, no conteúdo de ômega-3 e ômega-6 presente em cada óleo vegetal. Duas novas reanálises destes estudos tradicionais foram publicadas recentemente, atentando para efeitos a longo prazo na saúde das pessoas que participaram dos experimentos.

No estudo Australiano (Sydney Heart Diet Study), que foi conduzido entre 1966 e 1973, os indivíduos que sofreram intervenção (redução da ingesta de gorduras animais e aumento da gordura vegetal, basicamente óleo de cártamo) obtiveram sim redução de colesterol no sangue; mas, a longo prazo, tais indivíduos morreram MAIS (62% a mais) e tiveram mortalidade cardiovascular maior (70%). Ou seja, a gordura vegetal melhorou o resultado dos exames de sangue, mas foi muito ruim para saúde.

No segundo estudo, Minnesota Coronary Experiment, conduzido entre 1968 e 1973, os principais substitutos da gordura saturada foram óleo de milho e margarina de milho. Novamente, foi observada redução importante no colesterol do sangue com a dieta proposta. Uma análise do efeito da dieta na mortalidade, porém, mostrou que a dieta experimental NÃO reduziu as mortes, e possivelmente as aumentou em indivíduos com mais de 65 anos. Correlacionando-se, ainda, a medida de colesterol no sangue com a mortalidade, ficou evidente uma FORTE correlação: quanto mais baixo o colesterol atingido com a dieta, MAIS mortes.

Estes estudos não querem dizer que reduzir o colesterol no sangue faz mal para saúde; eles indicam que nem tudo o que reduz colesterol no sangue é bom para saúde, e nem tudo que aumenta colesterol no sangue é ruim para saúde. Por exemplo, usar medicamentos da classe das estatinas para reduzir colesterol REDUZ mortalidade, inequivocamente. Já usar óleo de cártamo para reduzir colesterol AUMENTA mortalidade.

Confuso? Ainda serão necessárias décadas de pesquisa para que se esclareça qual o efeito final de cada tipo de gordura na alimentação humana; hoje sabemos muito pouco a respeito.

O que parece certo até o momento:

  • Azeite de oliva extra virgem tem inúmeras evidências de ser saudável.
  • A gordura dos peixes marinhos parece ser muito saudável.
  • Gorduras animais (carne gorda, nata, banha, queijo), quando oriundas de animais alimentados naturalmente, parecem neutras para a saúde, desde que não consumidas em excesso.
  • Alimentos fritos em gordura aumentam as mortes, inclusive por câncer.
  • Uma dieta no estilo mediterrâneo, onde as gorduras provêm de azeite de oliva, nozes, castanhas, amêndoas, frutos do mar, aves e laticínios, acompanhados por muitas verduras, é saudável.
  • Em casos selecionados, reduzir o colesterol no sangue com uso de medicamentos (indicados por um médico bem-informado) é saudável a médio e longo prazo.
  • Gorduras oriundas de processos industriais devem ser encaradas com extrema desconfiança, pois são novidade para nosso organismo, e podem causar danos que só serão percebidos a longo prazo. Nenhuma destas gorduras pode ser avaliada seguramente como saudável ou mesmo neutra, no momento.

 Fontes:

http://www.bmj.com/content/353/bmj.i1246

http://www.bmj.com/content/346/bmj.e8707?ijkey=bbea039fec2dc9febe03bb871bf861169ceca364&keytype2=tf_ipsecsha

 


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