Procurando Arritmias

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A fibrilação atrial é uma das arritmias cardíacas mais comuns, e infelizmente é perigosa. Quando o coração sofre desta arritmia, seus batimentos ficam descompassados, e muitas vezes acelerados. Este descompasso propicia a formação de coágulos de sangue no interior do coração. E existe forte tendência de que estes coágulos se desloquem com os movimentos do coração, saindo dele, seguindo por dentro das artérias junto com o sangue, até encontrar uma artéria mais estreita e provocarem uma obstrução. A maioria das vezes esta obstrução acaba ocorrendo no cérebro, o que desencadeia uma isquemia cerebral ou derrame, com sérias sequelas e até mesmo levando à morte.
A fibrilação atrial pode acometer qualquer pessoa, mesmo quem não sofre de outras doenças, sem que se encontre uma causa definida. O principal fator de risco é a idade: quanto mais velha a pessoa, mais risco de desenvolver esta arritmia. Até pouco tempo atrás, estimava-se que 1% das pessoas sofriam desta arritmia aos 60 anos de idade, índice que subia para 7% aos 75 anos e mais de 10% acima dos 85 anos de idade.

Já faz tempo que a medicina tem um tratamento muito eficiente para evitar que as pessoas portadoras da fibrilação atrial sofram um derrame: o uso de medicações anticoagulantes, que impedem a formação de coágulos de sangue no interior do coração. Porém, pelo menos metade dos indivíduos portadores de fibrilação atrial não sabe que possui esta arritmia, visto que ela pode ser intermitente e ocorrer apenas alguns minutos ao mês, por exemplo (uma parcela destas pessoas percebe as batidas diferentes do coração mas não investiga sua causa, outra parcela não sente nada). A única maneira de diagnosticar esta arritmia é realizar um eletrocardiograma DURANTE a presença da arritmia. Isto nem sempre é fácil, pois às vezes os episódios de arritmia duram apenas alguns segundos ou poucos minutos; porém, o risco de formação de coágulos e derrames é o MESMO, tanto para quem tem arritmia esporadicamente como para quem sofre dela com frequência.

Então, a medicina encontra-se diante de uma patologia cada vez mais comum, com uma complicação devastadora, e um tratamento muito eficiente para evitar a complicação. O grande desafio é diagnosticar este grande número de pessoas que sofre da arritmia e não sabe.
No Congresso Europeu de Cardiologia, em setembro, foi apresentado o estudo sueco Strokestop, onde os investigadores abordaram esta questão de uma maneira simples, mas trabalhosa: todos os moradores de uma região da Suécia nas idades de 75-76 anos (25.000 pessoas) foram sorteados para receber rastreamento de arritmia ou não. A metade desta população que foi designada para rastreamento recebeu um aparelho portátil simplificado de eletrocardiograma, para registrar seus batimentos cardíacos em casa, durante um minuto por dia, por 2 semanas. Com este simples método, apenas um minuto por dia, descobriu-se que 11% desta população sofria de fibrilação atrial! E, mesmo em um país com um sistema de saúde altamente desenvolvido e uma população com muito alto nível de escolaridade, 3% não sabiam ser portadores de fibrilação atrial.

Isto indica que exames de rastreamento de fibrilação atrial podem ser de grande benefício para a redução do número de derrames. Na ausência do dispositivo portátil utilizado neste estudo, podemos lançar mão de um exame muito simples e amplamente disponível, chamado de Holter de 24 horas. Neste exame, um aparelho de eletrocardiograma em miniatura é preso à cintura do paciente, e alguns cabos são conectados ao seu peito, por baixo da roupa. O paciente vai com este aparelho para casa, para o trabalho, e realiza suas atividades normais durante 24 horas, com o monitor registrando todos batimentos cardíacos. Após 24h, o aparelho é retirado e os registros analisados, à procura de arritmias. Caso seja necessário, o paciente pode permanecer com o aparelho por 48 ou até 72h, ou mesmo repetir a monitorização na eventualidade de não ter sido detectado nada em um primeiro momento. Se houver um período de fibrilação atrial durante o monitoramento, por menor que seja, será detectado pelo aparelho e o paciente pode ter indicação de receber medicação anticoagulante. Mesmo que o paciente não tenha sentido nada.

Cabe alertar a população mais idosa para a necessidade de investigar com seu médico qualquer sensação anormal de aceleração dos batimentos do coração, devido ao risco de sofrer uma isquemia cerebral.

Fonte : European Society of Cardiology (ESC) Congress 2013. Abstract 4382. Presented September 3, 2013.


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