Ômega-3 e o coração

omega-3

Muitos pacientes chegam ao consultório relatando o uso de cápsulas de ômega-3, supostamente em benefício do coração.  Pois nos primeiros dias de maio, o respeitadíssimo periódico médico NEJM publicou o terceiro de uma série de estudos divulgados nos últimos anos a respeito do uso de ômega-3 (óleo de peixe) na cardiologia. Os dois estudos anteriores foram publicados em 2010.
No primeiro, chamado Omega Trial, 3851 pacientes que sobreviveram a um infarto do miocárdio na Alemanha foram sorteados para receber 1g de ômega-3 ou cápsulas de placebo, durante 1 ano. Após 1 ano, o número de mortes, infartos, cirurgias no coração e eventos adversos cardíacos foi o mesmo, tanto nos pacientes que receberam ômega-3 como nos que não receberam.
O segundo estudo, denominado Alpha Omega Trial, também foi realizado em sobreviventes de infarto, nesse caso 4837 pessoas, que foram sorteadas para receber 4 tipos diferentes de margarina, uma delas margarina comum e as outras três com dosagens e combinações diferentes de ômega-3. Após 40 meses de tratamento, nenhuma das dosagens de ômega-3 causou qualquer redução nos índices de eventos cardiovasculares
No novo estudo, recém publicado, e muito maior que os anteriores, os pesquisadores selecionaram 12513 pessoas na Itália, desta vez pessoas que nunca haviam infartado, porém sofriam risco grande de infarto por possuírem fatores risco para infarto (idade, diabetes, hipertensão, colesterol, etc) ou aterosclerose. Estes pacientes foram sorteados para receber 1g de ômega-3 ou placebo, durante 5 anos. E após todo esse tempo, os pacientes que receberam o ômega-3 não obtiveram qualquer redução no número de infartos, mortes, ou sequer de internações hospitalares. O resultado foi o mesmo para diabéticos e não diabéticos, e para idades acima ou abaixo de 65 anos.
A teoria de que esse suplemento seria benéfico teve origem na observação do baixo índice de eventos cardiovasculares nas populações que tem no peixe marinho parte importante da sua alimentação. O aparente paradoxo entre as observações destas populações e os resultados destes estudos provavelmente se deve ao fato de que quem come muito peixe come pouca carne vermelha, enquanto que nos estudos acima os pacientes seguiram ingerindo carne vermelha e apenas adicionaram o óleo de peixe.
Assim, infelizmente a medicina cardiovascular atual não tem qualquer embasamento para prescrição de ômega-3 na prevenção de eventos cardiovasculares.

Referências:
http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1205409
http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1003603
http://circ.ahajournals.org/content/122/21/2152.abstract


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