O que fazer quando o coração está “entupido”?

~coração

Décadas de pesquisas e investimentos trouxeram à cardiologia moderna um amplo arsenal terapêutico para combater diversas doenças. Porém, sem sempre é fácil para o médico definir qual o melhor tratamento para cada caso, tantas opções estando disponíveis. Nas últimas semanas, dois artigos de revisão publicados em uma revista de alto impacto (JAMA – Journal of the American Medical Association) trouxeram mais luz a esta questão, no que tange ao tratamento da coronariopatia, a doença mais comum no coração.
Nesta doença, as artérias do coração, chamadas coronárias, ficam parcialmente ou completamente bloqueadas por placas de gordura, dificultando ou mesmo impedindo a circulação de sangue que mantém o músculo cardíaco em atividade. Trata-se da principal causa de morte entre os adultos no Brasil, e uma das principais no mundo todo. Os portadores desta doença podem sofrer de angina (dor no coração), infarto ou morte súbita.
Ambos artigos são o que se chama de meta-análises. Isto quer dizer os que os pesquisadores vasculharam a literatura médica recente a respeito de estudos semelhantes sobre o mesmo tema, selecionando pesquisas adequadas. Depois, todas pesquisas são artificialmente reunidas em apenas uma, como se houvesse sido feito um grande estudo, e não vários menores. Este artifício, quando bem executado, permite que se descubram diferenças entre os tratamentos que passaram despercebidas nos estudos individuais.
No caso do primeiro artigo, foram selecionados 5 estudos, com 5286 pacientes, onde os doentes eram portadores de “entupimentos” nas artérias do coração e isquemia. Isquemia quer dizer que partes do coração estavam em sofrimento devido à falta de sangue causada pelos entupimentos. Os pacientes foram sorteados para receberem angioplastias nos entupimentos, ou não. Angioplastia é o procedimento de desentupimento realizado com cateteres, geralmente sendo implantando no local do entupimento um stent, conhecido popularmente como “molinha”, que mantém aberto o local onde o desentupimento foi feito. É claro que todos pacientes também receberam tratamento com medicamentos. A única diferença entre os grupos foi receber o tratamento com angioplastia ou não. Após vários anos de acompanhamento (até 5), não houve qualquer vantagem (ou desvantagem) para os pacientes que receberam o procedimento. Os desentupimentos por angioplastia não prolongaram a vida dos doentes, não evitaram infartos, não reduziram angina e nem evitaram internações hospitalares. A conclusão é de que tais procedimentos não tem utilidade nestes pacientes.
No segundo artigo, 6 estudos com 6055 pacientes foram agrupados. Neste caso, os pacientes tinham de ser portadores de vários “entupimentos” e foram sorteados para serem tratados com angioplastias ou com a tradicional cirurgia de “pontes de safena”. Após mais de 4 anos de seguimento, os pacientes que foram tratados com a cirurgia de safena morreram menos (27% menos), infartaram 42% menos, e tiveram 71% menos chance de necessitar de novo procedimento (cirurgia ou angioplastia). Os resultados foram os mesmos, tanto para pacientes com diabetes como para pacientes sem diabetes. Novamente, resultado desfavorável para as angioplastias.
Apesar dos resultados acima, isso não quer dizer que a angioplastia deve ser abandonada. Ela ainda tem seu papel em casos específicos, e é especialmente útil em casos de urgência, quando o paciente está sofrendo um infarto. Mas ficou mais fácil agora para o médico tomar decisões nos casos de pacientes semelhantes aos estudados nestes artigos.
Existe uma tendência importante na cardiologia a reconsiderar as indicações tradicionais de angioplastia. Ao contrário do que parecia quando a angioplastia foi inventada, hoje ficou bem claro que nem todo entupimento precisa ser desentupido. Aliás, poucos precisam.

Fontes:
Stergiopoulos K, Boden WE, Hartigan P, et al. Percutaneous coronary intervention outcomes in patients with stable obstructive coronary artery disease and myocardial ischemia: A collaborative meta-analysis of contemporary randomized clinical trials. JAMA Intern Med 2013; DOI:10.1001/jamainternmed.2013.12855. Available at:http://www.jamainternalmedicine.com.
Sipahi I, Akay HN, Dagdelen S, et al. Coronary artery bypass grafting vs percutaneous coronary intervention and long-term mortality and morbidity in multivessel disease: Meta-analysis of randomized clinical trials of the arterial grafting and stenting era. JAMA Intern Med 2013l; DOI: 10.1001/jamainternmed.2013.12844. Available at:http://archinte.jamanetwork.com/journal.aspx.


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