O POVO ONDE ATEROSCLEROSE NÃO É PROBLEMA

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 COMO EVITAR ATEROSCLEROSE, INFARTOS, DERRAMES

O povo indígena TSIMANE, da Amazônia Boliviana, ainda vive de uma maneira muito similar à que todos nossos antepassados provavelmente viviam até 12.000 anos atrás: trata-se de uma das últimas populações de caçadores-coletores ainda existentes no planeta, pouco afetados pela civilização. Os Tsimanes vivem em choupanas de madeira com teto de palha, em grupos de 60 a 200 pessoas, caçam e coletam boa parte da sua comida, e plantam poucos alimentos.

Sempre houve muito interesse em saber se as doenças comuns que afligem o homem moderno já existiam alguns milênios atrás, particularmente a aterosclerose (entupimento das artérias por placas de gordura), que é a principal causa de morte hoje em dia.

No recente congresso do Colégio Americano de Cardiologia, em Washington, pesquisadores norte-americanos e bolivianos apresentaram os resultados do estudo THLHP, onde uma amostra de 705 indivíduos do povo Tsimane foram submetidos a um moderno exame (angiotomografia de coronárias) a fim de detectar se sofrem de aterosclerose (cálcio nas artérias do coração), e em que proporção sofrem desta patologia.

Apenas indivíduos com mais de 40 anos realizaram o exame, sendo metade mulheres. Os resultados indicam a quantidade de cálcio (ou seja, placas de gordura) nas artérias coronárias do coração; o resultado normal é zero de cálcio, ausência de placas.

A quantidade de aterosclerose detectada nos indígenas foi extremamente baixa: 85% deles obtiveram resultado de zero (nada) de cálcio nas artérias; 13% tinham níveis baixos de aterosclerose e somente 3% níveis moderados dessa doença. Tais resultados são extremamente inferiores aos encontrados em populações modernas. Para efeitos comparativos, em uma população ocidental moderna, estudos semelhantes encontraram esse nível de aterosclerose em pessoas cerca de 30 anos mais jovens do que os Tsimane! Mesmo os homens Tsimanes, que tinham escores de aterosclerose superior ao das mulheres Tsimane, obtiveram escores muito inferiores às mulheres japonesas, até então o grupo conhecido com menos aterosclerose. Agora, os Tsimanes são a população com menos aterosclerose conhecida. Dentre os Tsimanes com mais de 80 anos de idade, 65% não tinham aterosclerose, valores equivalentes a uma população ocidental moderna na faixa dos 50 anos de idade.

Algumas características interessantes dos Tsimane estudados:

  • Existem cerca de 16.000 Tsimanes.
  • Eles têm em média 155 cm e 58 Kg, o que é considerado um leve sobrepeso.
  • A idade mais comum de morte dos adultos é 70 anos, compatível com outras civilizações primitivas estudadas; o indivíduo mais idoso já contava 95 anos de idade.
  • Os indivíduos analisados tinham em média 57 anos.
  • O colesterol total médio era 150 mg/dL, considerado ótimo.
  • O colesterol ruim (LDL) médio era 92mg/dL, considerado ótimo.
  • Triglicerídeos 106 mg/dL, considerado normal.
  • E o colesterol bom (HDL) médio 38,5 mg/dL, considerado baixo (o que é ruim).
  • A pressão arterial média era 116/73 mmHg.
  • 28% destes índios fumam, mas ocasionalmente, uma média de 10 cigarros ao mês.
  • Em 2004, o colesterol ruim (LDL) dos Tsimanes era, em média, 71 mg/dL; o aumento para os níveis atuais coincidiu com a disponibilidade de pequenos motores de popa, que tornaram possível adquirir eventualmente alimentos diferentes no vilarejo mais próximo.
  • A alimentação básica deste povo consiste em carne de caça, peixe fresco, arroz, banana, mandioca e milho, além de frutas e nozes selvagens.
  • Estima-se que 14% dos macronutrientes da sua dieta sejam proteína, 14% gordura e 72% carboidratos (não processados, obviamente).
  • Os homens Tsimanes permanecem em atividade física numa média 6 a 7 horas por dia, e as mulheres entre 4 e 6 horas.
  • Durante a luz do dia, este povo passa menos de 10% do tempo sentado, contra uma média de 54% do tempo na civilização moderna.
  • Dentre os registros encontrados sobre causa de óbito de 50 Tsimanes, somente 1 era compatível com doença coronariana (infarto), um índice extremamente baixo.

Tudo leva a crer que os fatores responsáveis pela baixíssima incidência de doença coronariana nessa população são seus hábitos de vida. Porém, o estilo de vida de subsistência, onde cada indivíduo caça, coleta ou planta sua própria comida e passa metade do dia se exercitando é impraticável em sociedades industrializadas como a nossa.

Somos criaturas civilizadas presas dentro de corpos de caçadores-coletores, e estes corpos ficam doentes com nossos hábitos de vida civilizados; por enquanto, o melhor que podemos fazer é tentar “imitar”, na medida do possível, o comportamento caçador-coletor que nossos corpos exigem, praticando muita atividade física, passando pouco tempo sentados e evitando todo alimento industrializado ou refinado.

 

Fonte:

http://thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(17)30752-3/fulltext?elsca1=tlpr


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