Medicações herbáceas para o coração (FITOTERAPIA)

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O tratamento de doenças com uso de ervas, plantas ou preparações a partir destas existe há milênios, e estima-se que 25% dos medicamentos vendidos hoje são derivados de plantas utilizadas na medicina natural. Apesar de todos avanços e pesquisas da ciência moderna, milhões de indivíduos no mundo todo ainda procuram tratamento com medicamentos fitoterápicos. Mesmo não havendo uma clara evidência a respeito de sua eficácia, eles podem ser comercializados, já que não estão sujeitos às mesmas regras dos medicamentos tradicionais.

Importante salientar que, nos medicamentos tradicionais, antes de o medicamento ser indicado para um certo problema, como por exemplo pressão alta, ele é testado em milhares de pessoas, comparado a um placebo (medicamento sem efeito) para que se determine exatamente qual é o seu real efeito naquela doença, quais são os efeitos adversos e seus riscos; muitas vezes, tais estudos falham (não mostram efeito benéfico) e o medicamento então não é aprovado para aquela doença e não pode ser vendido.

Já no caso dos fitoterápicos, isto não é necessário. Basta o fabricante alegar que ele é bom para determinado problema, sem qualquer prova ou teste. Muitas vezes, estas alegações não têm qualquer base, e os efeitos colaterais não são conhecidos.

Nos últimos anos, a passos lentos, novos estudos sobre os efeitos destas substâncias herbáceas ou fitoterápicas foram publicados, e agora o prestigiadíssimo periódico médico JACC (Journal of the American College of Cardiology) publicou uma ótima revisão a respeito do uso de fitoterápicos na medicina cardiovascular, revisando todas pesquisas recentes e antigas a respeito.

Os fitoterápicos abordados foram: ginseng, astrágalo, óleo de linhaça, alho, ginko-biloba, semente de uva, chá verde, espinheiro, cardo-leiteiro e soja.  Os autores enumeram ao final do artigo uma respeitável lista de 134 referências bibliográficas consultadas, o que indica que a revisão realizada foi mesmo muito ampla.

 

GINSENG:

  • Há poucos estudos clínicos grandes e de qualidade a respeito deste fitoterápico, não tendo sido encontrados eficácia contra hipertensão ou diabetes; há evidência insuficiente de seu benefício em doenças cardiovasculares. Nada que justifique seu uso, portanto.
  • Segurança: pode induzir atividade enzimática no fígado e consequentemente reduzir a eficácia de várias medicações tradicionais. Efeitos colaterais do uso prolongado: aumento da pressão, náusea, diarreia, cefaleia, insônia e alergias.

 

ASTRAGALO:

  • Partindo-se de efeitos potencias benéficos demonstrados em laboratório, pequenos estudos de baixa qualidade mostraram melhora de falta de ar e angina. Mas estes estudos, além de pequenos, sequer foram publicados em inglês. Até o momento, faltam dados de eficácia e segurança para que possa ser usado.
  • Segurança: desconhecida, não há estudos a respeito.

 

ÓLEO DE LINHAÇA:

  • Estudos em animais mostraram que este óleo pode retardar a progressão de placas ateroscleróticas. Uma meta análise de 11 estudos em humanos indica que óleo de linhaça, especialmente acima de 30g/d, reduz um pouco a pressão arterial (-1,7/-1,5 mmHg). Além disso, outros 28 estudos mostraram redução do colesterol ruim (LDL) em 15%.
  • Segurança: em geral bem tolerado, pode causar distúrbios intestinais, diarreia e constipação; pode também reduzir a absorção de outros medicamentos, reduzindo sua eficácia.

 

ALHO:

  • Postula-se que o alho tenha benefícios na pressão arterial, colesterol, triglicerídeos e agregação plaquetária. Porém, uma meta análise recente concluiu por não haver evidências suficientes de benefícios do alho na saúde cardiovascular. Os resultados para melhora da pressão arterial foram conflitantes. Uma análise de 39 estudos testando alho para redução de colesterol mostrou redução média de 10% no LDL, sem efeito no colesterol HDL (bom) ou triglicerídeos. Mas não houve melhora na saúde dos pacientes, nem redução de complicações. Um conjunto de estudos em diabéticos mostrou redução da glicose em jejum, mas novamente falhou em mostrar benefícios para saúde. Todos estudos de alho são pobres, com poucos pacientes, curta duração, e dosagens variadas da substância.
  • Segurança: apesar de pouco estudada, parece seguro. Efeitos colaterais mais comuns são relacionados ao odor do alho, azia, náuseas e vômitos. Em teoria, o alho poderia ser perigoso em pacientes que usam anticoagulantes ou derivados da aspirina, pois aumentaria o efeito destas drogas.

 

GINKO BILOBA:

  • Apesar de Ginko vir sendo usado exaustivamente no tratamento de asma, bronquite, cansaço, zunido, memória e doença coronariana, estudos grandes (mais de 3000 pacientes, por 6 anos) não mostraram qualquer benefício comparado ao placebo para mortalidade cardiovascular, eventos cardiovasculares ou angina.
  • Segurança: há vários efeitos colaterais, como dor de cabeça, náuseas, diarreia, tonturas, erupções cutâneas; há um risco aumentado de sangramento, tendo sido relatados casos de hemorragia intracraniana com seu uso quando usado concomitantemente com anticoagulantes ou derivados da aspirina.

 

SEMENTE DE UVA:

  • Por ser rica em antioxidantes e flavanóides, supõe-se que tenha benefício no tratamento de muitas condições cardiovasculares. O extrato de semente de uva, em pequenos estudos, mostrou uma leve redução de pressão arterial, e uma possível redução de colesterol. Mas são poucos dados, estudos pequenos, e até o momento não há evidência suficiente para recomendar seu uso.
  • Segurança: ainda desconhecida, pois pouco estudada. Efeitos colaterais comuns: tonturas, coceira, náuseas, diarreia, dor de cabeça, dor de garganta e tosse.

 

CHÁ VERDE:

  • Rico em flavanóides, vitaminas e sais minerais. Estudos observacionais (muito sujeitos a erros) mostraram que o chá verde pode reduzir mortalidade e doenças cardiovasculares quando consumindo em grande quantidade (3 xicaras ao dia) por muito tempo. Os estudos randomizados (de muito menos chance de erro) realizados até agora foram muito pequenos, e testaram maneiras diferentes de ingerir o chá verde. Os resultados benéficos para saúde, portanto, ainda carecem de comprovação.
  • Segurança: parece ser seguro. Alguns relatos de lesão hepática com concentrados de chá verde, mas raros. Em teoria, o chá verde pode reduzir a eficácia de anticoagulantes orais.

 

ESPINHEIRO:

  • Apesar de inúmeros dados biológicos de laboratório indicando potencial benefício para saúde, não há evidência robusta de efeito cardiovascular benéfico. Os estudos realizados foram com poucas pessoas e não permitem inferir que ele seja benéfico para hipertensão, colesterol ou outros fatores de risco cardiovasculares.
  • Segurança: efeitos colaterais raros e leves, como náuseas e tontura.

 

CARDO-LEITEIRO:

  • Seu ingrediente ativo é a silimarina, aparentemente com fortes efeitos anti-oxidantes e antiinflamatórios. Há extensa documentação destes efeitos em estudos laboratoriais, e uma análise de 5 estudos em diabéticos (270 pacientes) mostrou redução da glicose, sem efeito no colesterol. Mas não foram examinados eventos cardiovasculares, e são necessários estudos maiores e mais prolongados investigando esta substância.
  • Segurança: geralmente bem tolerado, os efeitos colaterais mais comuns são alergias, erupções cutâneas, diarreia e dor de cabeça;

 

SOJA:

  • Creditam-se à soja inúmeros benefícios para saúde humana. Seus grãos possuem muitas proteínas e isoflavonas, que tem propriedades semelhantes ao hormônio feminino estrogênio. Devido a benefícios mostrados em animais e uma análise conjunta de 29 estudos do séc XX mostrando redução de colesterol e triglicerídeos, em 1999 o FDA emitiu anunciado afirmando que 25g de proteína de soja por dia podem reduzir o rico cardiovascular. Investigações posteriores, porém, não conseguiram mais mostrar tais benefícios, e a maioria dos estudos recentes não mostrou redução de colesterol. Portando, apesar de um possível efeito no colesterol, mais estudos, maiores de mais qualidade, são necessários para concluir-se sobre seus benefícios.
  • Segurança: o consumo a longo prazo parece ser seguro. Efeitos colaterais comuns são náuseas, constipação e desconforto gastrointestinal. Existe preocupação com o risco aumentado de câncer de endométrio, câncer de mama, câncer de ovário e infertilidade masculina, além de disfunção na tireóide.

 

Assim, de todos fitoterápicos analisados acima, o melhor candidato a trazer benefícios para saúde é o óleo de linhaça, mas, mesmo para ele, as evidências ainda são fracas. São necessários estudo muito maiores para determinar se ele realmente é bom para saúde. Como experiências anteriores já demonstraram, nem tudo que reduz colesterol é bom para saúde (http://clinicapetterson.com.br/reavaliacao-da-tradicional-dieta-do-coracao/).

Os autores também fizeram uma relação dos riscos de se utilizar os fitoterápicos, não mencionados acima:

  • Laranja amarga: comumente utilizada para perda de peso, já se demonstrou que pode causar taquicardias, arritmias malignas, AVC angina e infarto do miocárdio.
  • Efedra: fitoterápico que era popular para perda de peso, foi retirado do mercado nos EUA porque aumentava o risco de eventos cardiovasculares, especialmente arritmias, insuficiência cardíaca, infarto e morte.
  • Salvia miltiorrhiza: interfere muito com o medicamento Warfarina (anticoagulante) levando a um risco aumentado de sangramento.
  • Hidrase: comumente utilizado para prevenção de resfriados, inibe enzimas no fígado levando a um grande aumento do efeito de vários fármacos comuns.
  • Oxicoco: utilizado para prevenir infecção urinária em mulheres, aumenta muito o efeito do medicamento warfarina, podendo levar a sangramentos.
  • Erva de São João: reduz o efeito de vários medicamentos.

Portando, apesar de os defensores da fitoterapia alegarem que se trata de substâncias “naturais”, estas substâncias podem sim fazer mal para saúde, como já foi comprovado nos exemplos acima.

Talvez no futuro alguns fitoterápicos tenham comprovação de eficácia e segurança, e possam ser utilizados rotineiramente como tratamento médico; mas, no momento, compõem um grande grupo de substâncias cujos efeitos na saúde são pouco compreendidos e estudados; alguns já tiveram seus malefícios comprovados e devem ser evitados, mas a grande maioria permanece em uma zona escura de conhecimento. No ritmo atual, serão necessárias décadas de pesquisa para que se estabeleça o real papel destes medicamentos. Até lá, o seu uso deve ser feito por conta e risco do usuário, pois ninguém conhece as reais consequências de seu consumo.

Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28254182


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