Estatinas causam diabetes?

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Sim, causam, mas causam bem pouco, e tudo indica que é um “diabetes fraco” pouco sujeito a complicações.

As estatinas, o famoso grupo de medicamentos para redução do colesterol LDL, estão entre os fármacos mais prescritos no mundo. Estas medicações comprovadamente são úteis para reduzir o número de infartos, derrames e morte numa variedade de pacientes. Em regiões onde seu uso foi disseminado, houve uma importante redução no número de infartos atendidos nos hospitais. Desde 1987, quando a primeira estatina (lovastatina) passou a ser comercializada, já foram colocadas no mercado outras 8 estatinas, em diversas dosagens, e o número de prescrições médicas destes medicamentos segue crescendo.

Ao longo destes quase 30 anos, devido à popularização intensa destas drogas, diversos paraefeitos foram supostamente atribuídos às estatinas, e os estudos científicos realizados em milhões de pessoas desmentiram a grande maioria destes efeitos adversos. Em 2010, uma análise conjunta destes estudos revelou que os usuários de estatina têm mais chance de desenvolver elevações da medida de glicose no sangue (diabete). A seguir, em 2011, outra análise mostrou que, nas doses mais potentes de estatinas, este risco aumenta. Então, em fevereiro de 2012, o FDA (órgão do governo americano) aprovou mudança nas bulas das estatinas vendidas nos EUA, acrescentando que elas podem elevar a dosagem de açúcar no sangue. E agora no final de maio, dois importantes estudos canadenses a esse respeito foram publicados quase simultaneamente, e trouxeram esse assunto à tona mais uma vez.

No estudo do Dr Dennis Ko, 17000 pacientes que sofreram infarto do miocárdio foram acompanhados após a alta hospitalar, e os pesquisadores os dividiram em dois grupos, o grupo que recebeu receitas de altas doses de estatinas e o grupo que recebeu receita de baixas doses de estatinas (isto porque seria indadmissível manter pacientes pós-infarto sem estatinas). Após 5 anos de acompanhamento, cerca de 13% dos pacientes em cada grupo ficaram diabéticos, sem diferença significativa, porém os pacientes que receberam altas doses tiveram menos re-hospitalizações e menos infartos subsequentes. Este estudo não confirmou o temor do diabetes com altas doses de estatinas.
Já no estudo do Dr Aleesa Carter, foram identicados 471000 pacientes em uso de estatinas e sem diabetes. Após 14 anos de acompanhamento, os pacientes tratados com as estatinas mais potentes (atorvastatina, rosuvastatina e sinvastatina) tiveram maior incidência de diabetes (22, 18 e 10%) do que os pacientes que usaram as estatinas menos potente.

As informações anteriores, publicadas em 2010 e 2011, mostravam que o uso de estatinas aumentava em 9% a chance de diabetes, e o uso de estatinas potentes aumentava o risco 12%, quando comparado ao uso de estatinas menos potentes.
Apesar de todos estes dados, tais medicamentos ainda são extremamente úteis e recomendados, e eis porque:

1.    Diabetes é uma doença que não se caracteriza apenas por elevação dos níveis de açúcar no sangue, mas sim, especialmente, pelo desenvolvimento precoce e agressivo de aterosclerose; como as estatinas combatem a aterosclerose intensamente, estes casos novos de diabetes provavelmente vão evoluir como “diabetes fraco”, com muito menos complicações graves (infartos, derrames) do que os casos comuns de diabetes.
2.    Risco x benefício: os mesmos estudos citados acima, e que mostraram este aumento da incidência de diabetes em uso da medicação, também mostraram grande redução no número de infartos, derrames, cirurgias cardíacas, internações hospitalares e mortes devido ao uso de estatinas. O benefício prevalece numa relação aproximada de 3 para 1: para cada 3 eventos cardiovasculares evitados, causa-se um “diabetes fraco”.
3.    Infelizmente, diabetes já é uma doença comum, e muitas possoas desenvolvem diabetes mesmo sem uso de estatina. Portanto, se você usa estatina e ficou com diabetes, a chance de que isso fosse acontecer mesmo sem estatina é de 80% (levando em conta as expectativas mais pessimistas); apenas 20% dos casos de diabetes em uso de estatina poderiam ser atribuídos a esta medicação.

Assim sendo, é consenso entre grande parte dos estudiosos do assunto de que este paraefeito, ainda que relevante, é praticamente insignificante perante os benefícios que o tratamento traz para os pacientes. O mais importante é que a prescrição das estatinas seja cuidadosamente avaliada pelo médico, inicialmente, pois são medicações de uso permanente. Como em tudo mais na medicina, a decisão baseia-se no risco e no benefício de usar o medicamento. Quanto mais perigo o paciente tem de sofrer um evento cardiovascular, mais benefício ele terá em usar as estatinas, e menos relevante torna-se o perigo de desenvolver um “diabetes fraco”.
O bom médico não prescreve estatinas para todo paciente com colesterol alto, mas somente para os casos onde o benefício supera os riscos.

Fontes
1. Ko DT, Wijeysundera HC, Jackevicius CA, et al. Diabetes and cardiovascular events in older myocardial infarction patients prescribed intensive-dose and moderate-dose statins. Circ Cardiovasc Qual Outcomes 2013; 6: 315-22. DOI:10.1161/CIRCOUTCOMES.111.000015.
 2. Carter AA, Gomes T, Camacho X, et al. Risk of incident diabetes among patients treated with statins: a population-based study. BMJ 2013; DOI: 10.1136/bmj.f2610.
3. Preiss D, Seshasai SR, Welsh P, et al. Risk of incident diabetes with intensive-dose compared with moderate-dose statin therapy. JAMA 2011; 305:2556-2564.
4. Sattar N, Preiss D, Murray HM, et al. Statins and risk of incident diabetes: a collaborative metaanalysis of randomised statin trials. Lancet. 2010; 375(9716):735-742.


Comentários

21/10/2016 12:58

Aristóteles Francisco das Chagas ( medico clinico)

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GOSTARIA DE SER INFORMADO SE O as NÃO COMBATE O COLESTEROL

21/10/2016 13:00

Aristóteles Francisco das Chagas ( medico clinico)

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GOSTARIA DE SER INFORMADO SOBRE A MEDICAÇÃO DAS ESTARNAS PROVOCA DIABETES TIPO 2

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