Carboidratos X Gorduras parte II

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No Congresso Europeu de Cardiologia foi apresentado o estudo PURE, cujos resultados, conforme o post prévio (http://clinicapetterson.com.br/carboidratos-x-gorduras-chegou-a-palavra-final/) indicaram que comer mais gorduras e proteínas é melhor para saúde do que comer pouca gordura e pouca proteína, e o inverso é verdade para os carboidratos (quem come mais carboidratos morre antes).

Apesar dos resultados publicados serem de grande utilidade, existem palavras de cautela que devem ser frisadas antes de aceitarmos isso como verdade absoluta:

  • É um estudo observacional

Estudos observacionais, como nome diz, são estudos onde determinadas variáveis são observadas e depois de um tempo correlacionadas com alguns eventos; estes estudos não podem garantir que a relação observada entre a variável e o evento seja CAUSAL. Ou seja, o estudo mostrou que quem come mais carboidratos morre mais, mas não se pode afirmar com certeza que foram os carboidratos que CAUSARAM estas mortes – talvez os maiores comedores de carboidratos tenham também outros comportamentos que expliquem o excesso de mortes; os autores tentaram controlar os resultados para diversos outros fatores conhecidos que prejudicam a saúde, como fumar e ser sedentário, mas não é possível prever tudo, e sempre há chance de algum erro nestes estudos. Porém, o tipo de estudo que poderia resolver esta questão (trial randomizado) é extremamente difícil de ser realizado na área da nutrição, portanto geralmente precisamos nos orientar pelos estudos observacionais como o PURE.

  • Qual o grau de orientação nutricional?

Em algumas regiões de mundo, depois de décadas de “orientação nutricional”, as pessoas que mais cuidam de sua saúde deixaram de comer aquilo que era propagandeado como nocivo (gorduras), e isso pode ter levado a falsos resultados em estudos observacionais realizados nestas regiões (EUA, por exemplo) – lá, quem comia gordura nos últimos 20-30 anos eram os irresponsáveis, e quem comia muito carbs eram os “certinhos”; os irresponsáveis também tinham vários outros comportamentos de desleixo com a saúde, ao contrário dos “certinhos” – talvez por isso estudos realizados nestes locais tenham mostrado resultados opostos ao PURE. Mas será que nas regiões estudadas pelo PURE também não há dogmas nutricionais que levam os mais “certinhos” a comer diferente, e com isso trazem um falso resultado?

 

  • A menor mortalidade não foi com “zero” carboidratos

Apesar de uma dieta com baixíssimos níveis de carbs ser factível e aparentemente segura, a menor mortalidade no gráfico publicado do estudo PURE foi obtida com 52-53% de carboidratos. Aparentemente, esta seria a faixa mais segura de consumo, o que ainda deixa os carboidratos como fonte principal de energia na dieta.

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  • Que tipo de carboidratos?

Talvez a maior questão de todas: dividir a dieta humana em apenas 3 componentes (carboidratos, gorduras e proteínas) pode ser uma simplificação excessiva. Se alguém come 100g de mel com certeza não está comendo a mesma coisa do que alguém que come 100g de batata; assim como um refrigerante não pode ser comparado a uma banana; mas são todos carboidratos, e, no estudo apresentado, são todos a mesma coisa. Talvez se os tipos de carboidratos fossem separados na análise, os resultados mostrariam que açúcar e farinha levam a mais mortes, mas tubérculos e frutas não. Espera-se que tal análise ainda seja feita e publicada, com os dados obtidos.

  • Preparo dos alimentos

Eis uma questão muito ampla e complexa; uma mesma porção de carne de gado pode ser preparada no espeto, sobre brasas e fumaça, ou em uma chapa de ferro quente, ou frita em óleo refinado, ou em uma panela de barro, bem ou mal-passada, e ainda de várias outras maneiras. Cada uma delas levará a uma composição química final diferente, e provavelmente efeitos diversos no organismo. No estudo em questão, são todas a mesma coisa: proteína e gordura. Estamos muito longe de ter dados robustos a respeito dos efeitos de cada modo de preparo em cada alimento, apenas sabemos que as frituras por imersão são tóxicas. As variáveis são tantas que existem dezenas de milhares de possibilidades a serem testadas.

A triste verdade é que a ciência da nutrição ainda está tateando no escuro. O grau atual de conhecimento desta ciência está muito abaixo ao de outras ciências, e a presente geração de pesquisadores (e a próxima) não viverá o suficiente para conviver com o conhecimento pleno de como deve ser a alimentação ideal do homo sapiens. Temos que fazer o melhor proveito possível do pequeno conhecimento que já adquirimos.

No momento, com toda humildade necessária num campo de parcos conhecimentos, parece um erro restringir o consumo de gorduras na dieta, e provavelmente os carboidratos refinados é que são os vilões.

Fonte:

Dehghan M, Mente A, Zhang X, et al. Associations of fats and carbohydrate intake with cardiovascular disease and mortality in 18 countries from five continents (PURE): A prospective cohort study Lancet 2017: DOI:10.1016/ S0140-6736(17)32252-3

 


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