Carboidratos X Gorduras, chegou a palavra final?

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No Congresso Europeu de Cardiologia, a apresentação do mega-estudo observacional PURE prometia esclarecer de vez a fleuma entre aqueles que têm medo de comer gorduras e aqueles que condenam os carboidratos da alimentação.

A título de recordação, a alimentação humana é composta de 3 grandes grupos de nutrientes, chamados de macronutrientes:

  • Proteínas: são os “blocos de construção” do nosso corpo, e são obtidos nas carnes, ovos, leite e legumes, entre outros.
  • Carboidratos: são o combustível, a fonte de energia mais simples para nosso organismo, são obtidos nos alimentos doces, batata, arroz, milho e nas farinhas, entre outros.
  • Gorduras: podem ser animais, vegetais ou industriais, e são essenciais para o funcionamento do corpo.

Décadas de debate científico foram inconclusivos na hora de definir em qual a proporção cada um destes elementos deve estar presente na dieta ideal. Mais gordura? Mais proteína? Mais carboidratos? A recomendação mais presente no “bom senso” geral, formulada décadas atrás, é a de que devemos restringir o consumo de gorduras, mas nos últimos anos vários defensores do consumo elevado de gordura têm conseguido provas científicas que respaldam sua opinião.

Os estudos “tradicionais” que tentaram correlacionar o consumo de macronutrientes com a saúde foram realizados, em sua grande maioria, no norte da Europa e nos EUA, em populações urbanas altamente desenvolvidas, e muito sujeitas a excessos alimentares.  Talvez sejam, portanto, não representativos da realidade, e mostraram que um aumento do consumo de gorduras parece trazer malefícios, o que levou ao dogma atual.

O estudo em questão (PURE), é muito diferente: foi realizado nos 5 continentes, em 18 países, tomando-se o cuidado de incluir países ricos, países em desenvolvimento e países subdesenvolvidos, além de populações urbanas e rurais.  No total, 135 mil pessoas foram investigadas a partir 2003 e acompanhadas por mais de 7 anos nestes locais, tendo sido avaliados diversos marcadores de saúde, com especial atenção para a alimentação destes indivíduos. Através de inquéritos alimentares e tabelas de composição nutricional dos alimentos, foram determinadas as quantidades de carboidratos, proteínas e gorduras na dieta de cada participante. Após o final do acompanhamento, em março de 2017, esta população já contava com 5796 óbitos e 4784 eventos cardiovasculares maiores (2143 infartos e 2234 “derrames”). Foi um estudo muito maior e mais amplo que seus antecessores, portanto. E realizado com a comida do século XXI, que é diferente da comida da década de 1960, quando foram feitos os primeiros estudos “tradicionais”.

Veja nesta tabela a diferença de alimentação entre as regiões estudadas:

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Portanto, a fonte mais comum de energia na alimentação humana neste início de séc XXI ainda são os carboidratos, em todo o mundo. O consumo de gorduras é menor na China e maior na Europa e Meio-oriente. E nós, sul-americanos, somos os maiores consumidores de proteínas, especialmente carne.

Ao cruzar os dados, os pesquisadores dividiram o consumo de cada um destes componentes em 5 faixas, e as comparações entre as faixas de menor consumo com as de maior consumo mostraram que quem come MAIS carboidratos morre MAIS (28% mais), e quem come MAIS gorduras morre MENOS (23% menos). Um resultado muito consistente e também muito contrastante com os estudos antigos. E quem come MAIS proteína morre MENOS (12% menos).

A grande redução do número de mortes com a alimentação mais rica em gordura não se deveu a uma redução de eventos cardiovasculares, e sim a uma redução enorme das mortes não cardiovasculares neste grupo. O número de infartos não foi menor ou maior, e o número de “derrames” foi um pouco menor para os grandes comedores de gordura.

Como mostra o gráfico abaixo, o benefício do consumo de gordura foi obtido com qualquer um dos 3 tipos de gordura, fosse ela saturada (carne, laticínios), monoinsaturada (castanhas, amêndoas, canola, azeite de oliva) ou poli-insaturada (nozes, óleos de milho e soja, peixes do mar) sendo a última a mais benéfica.

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O impacto deste estudo vai moldar as recomendações dietéticas por décadas a partir de agora, e provavelmente muitos governos e instituições de saúde modificarão suas diretrizes com estes novos dados. A gordura parece não ser a vilã que se pensava, mas mudanças deste tipo levam décadas para ocorrer em um campo tão ligado a tradição e cultura como a comida nossa de cada dia.

 

O estudo PURE é importantíssimo para a ciência da nutrição, mas tem pontos fracos e questionamentos importantes, que abordarei em outro post.

Fonte:

Dehghan M, Mente A, Zhang X, et al. Associations of fats and carbohydrate intake with cardiovascular disease and mortality in 18 countries from five continents (PURE): A prospective cohort study Lancet 2017: DOI:10.1016/ S0140-6736(17)32252-3

 

 

 

 


Comentários

05/10/2017 14:37

Antonio Rocha

Reply

Mudei minha dieta reduzindo significativamente os carboidratos, resposta muito boa do organismo e perda de peso de aproximadamente 10 kg. Muito obrigado por compartilhar esse estudo.

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