Câncer intestinal após antibióticos

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Nossos intestinos são habitados por cerca de 100 trilhões de bactérias, o que corresponde a 10 bactérias para cada célula do nosso corpo. Toda essa população de bactérias, conhecida como microbiota intestinal, produz um sem-número de elementos químicos e hormonais que atuam localmente no intestino e em todo nosso organismo, à distância, circulando pelo sangue. A ciência começa a desvendar alguns dos efeitos benéficos (e maléficos) obtidos ao manipular-se esta microbiota.

Sabe-se que, toda vez que alguém usa antibióticos, sejam eles para tratar doenças na garganta, sinusite, infecções na bexiga ou na pele, o medicamento sempre acaba atuando também nesta microbiota intestinal, matando algumas populações de bactérias e consequentemente permitindo a proliferação de outras populações. Os efeitos deste desbalanço intestinal podem ser variados, a depender de uma complexa interação entre o hospedeiro, o antibiótico e a microbiota.

Pesquisadores norte-americanos publicaram no periódico médico Gut um trabalho analisando o efeito a muito longo prazo destas ações intestinais dos antibióticos. A ideia era averiguar se o uso prolongado dessas drogas levaria ao surgimento de adenomas colorretais posteriormente. Adenomas são as lesões precursoras da maior parte dos casos de câncer no intestino grosso.

Utilizando-se a base de dados do Nurse´s Health Study, foram localizados 1195 casos de adenoma, em um universo de mais de 16.000 mulheres acima de 60 anos de idade. Os registros indicaram que, nas mulheres as quais utilizaram antibióticos por um período total de mais de 2 meses, entre as idades de 20 e 39 anos, o risco de desenvolver essa lesão pré-maligna décadas mais tarde era 36% maior, um resultado altamente significativo. Pior, quando o uso de antibiótico por mais de 2 meses ocorreu entre as idades de 40 e 59 anos, o risco de adenomas colorretais ficou 69% maior! Já o uso de antibióticos nos últimos 4 anos antes do diagnóstico de adenoma não obteve esta correlação. Importante salientar que o tempo de uso de antibiótico foi a soma de todos os dias de uso, mesmo que não consecutivos. Não é difícil somar 60 dias de uso em 20 anos.

Apesar de ser um estudo retrospectivo, a força da associação e plausibilidade biológica sugerem fortemente que o uso prolongado de antibióticos pode ser um fator importante no surgimento de câncer intestinal muitos anos mais tarde. Os mecanismos pelos quais os antibióticos poderiam levar a tal efeito são vários, mas na maioria incluem um desbalanço na microbiota intestinal durante seu uso, levando a efeitos tóxicos na parede intestinal.

Assim, mais uma evidência a favor do uso restrito de antibióticos, reservando-os para tratar somente os casos onde eles são realmente necessários. Não há dúvidas de que o surgimento destas medicações melhorou incrivelmente a saúde da população e salvou milhões de vidas, mas os antibióticos não são necessários, por exemplo, na maioria dos casos de sinusites ou “dor de garganta” – se a doença melhora sem estes medicamentos, melhor aguardar a cura espontânea do que se arriscar a “bagunçar” toda microbiota intestinal, com efeitos ainda não bem conhecidos a curto e a longo prazo. Podemos especular que, em alguns anos, talvez haja redução nos casos de câncer intestinal no Brasil, como consequência da lei que condicionou a venda de antibióticos à retenção de receita médica.

Fontes:

 http://www.medscape.com/viewarticle/878242

http://gut.bmj.com/content/early/2017/03/16/gutjnl-2016-313413

 


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