A “inutilidade” das estatinas

color pills

Supondo que você é saudável, se tivesse a opção de tomar um remédio, no formato de pílula, uma pílula por dia, grátis, para o resto da sua vida, sem efeitos adversos, com o propósito de prolongar a vida por alguns meses, você faria isso? Em outras palavras, o incômodo do uso diário de uma medicação valeria a pena?

Foi esta pergunta que pesquisadores em Londres fizeram para 360 pessoas, aleatoriamente. Porém, os pesquisadores perguntaram quanto tempo a mais de vida cada pessoa julgava que teria que ganhar pra valer a pena usar tal medicação hipotética. Ou seja, queriam saber se as pessoas topariam usar um medicamento a longo prazo para ganhar algum tempo a mais de vida.

Esta pergunta é importante porque, para muitas pessoas, tal medicamento hipotético já existe: as famosas estatinas, também conhecidas por reduzirem o colesterol. Hoje já é possível para o médico identificar pessoas que, se usarem estatinas preventivamente diariamente por longo prazo, terão como benefício uma vida mais longa. E estes medicamentos tem baixíssimo índice de efeitos colaterais (http://clinicapetterson.com.br/os-efeitos-colaterais-dos-medicamentos-para-colesterol-estatinas/), além de serem fornecidos gratuitamente pelo governo em muitos países (como o Brasil). Porém, o tempo de vida que um usuário de estatina preventiva ganha é muito variável, e depende de certas características de cada caso, variando grosseiramente de 3 a 24 meses.

Os pesquisadores descobriram, que, em média, os entrevistados exigiam um ganho de pelo menos 6 meses de vida para valer a pena o uso diário do medicamento hipotético. Para 2/3 destas pessoas, mais de um mês de ganho de vida já valeria a pena. Porém, para 12% dos entrevistados, somente uma ganho de mais de 10 anos de vida justificaria o uso de tal medicação. Para estes 12%, claramente não valeria a pena usar estatina preventiva, pois o ganho de 10 anos é muito acima do constatado até hoje.

Como se vê, o incômodo do uso contínuo de medicação é uma estimativa muito pessoal. E o benefício de alguns meses a mais de vida também. É muito importante que o médico tenha este tipo de dado em mente quando discutir com um paciente saudável se vale ou não vale a pena iniciar um tratamento a longo prazo, preventivo.

 Fonte: Fontana M, Asaria P, Moraldo M, et al. Patient-accessible tool for shared decision making in cardiovascular primary prevention. Circulation 2014; 129: DOI:10.1161/circulationaha.113.007595


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